Monday, April 25, 2005

Queda nos índices de criminalidade

Calma, é em Cardiff, no País de Gales. E eu já morei lá...

'Sharp drop' in violent crimes
BBC

Injuries from violent crime throughout England and Wales have dropped sharply, according to research by Cardiff University.
The study examined the number of admissions into emergency units as a result of violence and assaults.
Figures were 20% lower in 2004 than five years ago.
Researchers believe one factor was that CCTV cameras in town and city centres brought earlier intervention by police.
The study was carried out in more than 30 hospitals by the university's violence research group.
It found that across Wales and England as a whole the number of people admitted to casualty units because of violent crime was down by 25,700 last year, compared to the year 2000.
In Wales, the percentage drop in admissions was even higher, at 20%.
Professor Jonathan Shepherd, a professor of oral and maxillofacial surgery, who led the research, said there had been a clear and substantial decrease in injuries which he said was a "tribute" to police.
He told BBC Wales: "As people who treat the injured, this is really good news.

Thursday, April 07, 2005

Ladrões atuam na Assembléia - e não são políticos!

Daniel Scola

O esquema de vigilância com 57 câmeras e 30 novos seguranças contratados neste ano não impediram a ação de ladrões no interior do prédio da Assembléia Legislativa gaúcha./ Pelo menos 9 deputados estaduais tiveram computadores portáteis furtados de dentro de seus gabinetes./ Laptops também desapareceram da sala da coordenação das bancadas do PT, PFL e PCdoB./ A onda de furtos de computadores no prédio do Poder legislativo começou há dois anos, mas teve o maior número de casos registrados de dezembro pra cá./ O sumiço mais recente ocorreu no fim de semana passado, no gabinete do deputado Márcio Biolchi, do PMDB./ A falta do laptop foi notado quando os funcionários de gabinete chegaram para trabalhar na segunda-feira./ Foi a segunda vez que ladrões agiram na sala do parlamentar./

Cada deputado tem direito a um laptop./ Em caso de furto ou perda do equipamento, o parlamentar tem que ressarcir a Assembléia./ O computador está avaliado em seis mil reais./ Em nenhum dos casos houve arrombamento do gabinete e a maioria ocorreu em fins de semana./ O deputado Raul Pont afirmou que prefere não ter mais computador portátil dentro do gabinete./ O equipamento tinha cabo de segurança que só poderia ter sido desconectado com a chave de um cadeado./

A secretaria do deputado Heitor Schuch do PSB saiu para almoçar e quando voltou não encontrou mais o laptop./

Durante o feridão de Páscoa, há dez dias, o laptop do deputado Estilac Xavier do Pt foi furtado de seu gabinete./ A direção da Casa divulgará amanhã relatório do departamento de segunraça sobre o furto de computadores.////

Sun reporter takes fake bomb into Windsor Castle

"Era o que faltava!"


Police are investigating another security breach at Windsor Castle after a Sun journalist drove a van containing a fake bomb close to the Queen's apartments just days before the royal wedding blessing.
Sun journalist Alex Peake drove past the chapel where the Prince of Wales and Camilla Parker Bowles are due to be blessed on Saturday, the newspaper said in a front page story titled "Gatecrasher in the Castle".
The newspaper said Mr Peake and photographer Gary Stone posed as delivery drivers.

Their hired van carried a brown box that had been clearly marked with the word "bomb".
A Scotland Yard spokesman said: "This apparent breach of security at Windsor Castle in the run-up to the royal wedding properly raises serious concern.
"It is only right that the facts are established before any action is taken against any person who may be culpable."
The statement added: "The commissioner has ordered an immediate inquiry to establish these facts."
A spokeswoman for Buckingham Palace said: "Security is a matter for the police who have been asked to investigate."
The news came after it emerged on Tuesday that two intruders broke into the private area of Windsor Castle on April 3.
Self-styled comedy terrorist Aaron Barschak was involved in another high-profile security breach when he gatecrashed Prince William's 21st birthday party in 2003.
The paper has also breached security in parliament smuggling a fake bomb into the House of Commons last year

Wednesday, April 06, 2005

A melhor profissão do mundo

Gabriel García Márquez


"Há uns cinqüenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar."
"Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo mundo fazia uma pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redação para tomar café. Era uma tertúlia aberta em que se discutiam a quente os temas de cada seção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade não o eram."
"O jornal cabia então em três grandes seções: notícias, crônicas e reportagens, e notas editoriais. A seção mais delicada e de grande prestígio era a editorial. O cargo mais desvalido era o de repórter, que tinha ao mesmo tempo a conotação de aprendiz e de ajudante de pedreiro. O tempo e a profissão mesma demonstraram que o sistema nervoso do jornalismo circula na realidade em sentido contrário. Dou fé: aos 19 anos, sendo o pior dos estudantes de direito, comecei minha carreira como redator de notas editoriais e fui subindo pouco a pouco e com muito trabalho pelos degraus das diferentes seções, até o nível máximo de repórter raso.
A prática da profissão, ela própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional. Os autodidatas costumam ser ávidos e rápidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profissão do mundo - como nós a chamávamos. Alberto Lleras Camargo, que foi sempre jornalista e duas vezes presidente da Colômbia, não tinha sequer o curso secundário.
A criação posterior de escolas de jornalismo foi uma reação escolástica contra o fato consumado de que o ofício carecia de respaldo acadêmico. Agora as escolas existem não apenas para a imprensa escrita como para todos os meios inventados e por inventar. Mas em sua expansão varreram até o nome humilde que o ofício teve desde suas origens no século XV, e que agora não é mais jornalismo, mas Ciências da Comunicação ou Comunicação Social.
O resultado não é, em geral, alentador. Os jovens que saem desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais, e um afã de protagonismo prima sobre a vocação e as aptidões naturais. E em especial sobre as duas condições mais importantes: a criatividade e a prática.
Em sua maioria, os formados chegam com deficiências flagrantes, têm graves problemas de gramática e ortografia, e dificuldades para uma compreensão reflexiva dos textos. Alguns se gabam de poder ler de trás para frente um documento secreto no gabinete de um ministro, de gravar diálogos fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como notícia uma conversa que de antemão se combinara confidencial.
O mais grave é que tais atentados contra a ética obedecem a uma noção intrépida da profissão, assumida conscientemente e orgulhosamente fundada na sacralização do furo a qualquer preço e acima de tudo. Seus autores não se comovem com a premissa de que a melhor notícia nem sempre é a que se dá primeiro, mas muitas vezes a que se dá melhor. Alguns, conscientes de suas deficiências, sentem-se fraudados pela faculdade onde estudaram e não lhes treme a voz quando culpam seus professores por não lhes terem inculcado as virtudes que agora lhes são requeridas, especialmente a curiosidade pela vida.
É certo que tais críticas valem para a educação geral, pervertida pela massificação de escolas que seguem a linha viciada do informativo ao invés do formativo. Mas no caso específico do jornalismo parece que, além disso, a profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro.
Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorrência feroz da modernização material e deixaram para depois a formação de sua infantaria e os mecanismos de participação que no passado fortaleciam o espírito profissional. As redações são laboratórios assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A desumanização é galopante.
Não é fácil aceitar que o esplendor tecnológico e a vertigem das comunicações, que tanto desejávamos em nossos tempos, tenham servido para antecipar e agravar a agonia cotidiana do horário de fechamento.
Os principiantes queixam-se de que os editores lhes concedem três horas para uma tarefa que na hora da verdade é impossível em menos de seis, que lhes encomendam material para duas colunas e na hora da verdade lhes concedem apenas meia coluna, e no pânico do fechamento ninguém tem tempo nem ânimo para lhes explicar por que, e menos ainda para lhes dizer uma palavra de consolo.
"Nem sequer nos repreendem", diz um repórter novato ansioso por ter comunicação direta com seus chefes. Nada: o editor, que antes era um paizão sábio e compassivo, mal tem forças e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro da tecnologia.
A pressa e a restrição de espaço, creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta de gênero mais brilhante, mas que é também o que requer mais tempo, mais investigação, mais reflexão e um domínio certeiro da arte de escrever. É, na realidade, a reconstituição minuciosa e verídica do fato. Quer dizer: a notícia completa, tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conheça como se tivesse estado no local dos acontecimentos."
"O gravador é culpado pela glorificação viciosa da entrevista. O rádio e a televisão, por sua própria natureza, converteram-na em gênero supremo, mas também a imprensa escrita parece compartilhar a idéia equivocada de que a voz da verdade não é tanto a do jornalista que viu como a do entrevistado que declarou. Para muitos redatores de jornais, a transcrição é a prova de fogo: confundem o som das palavras, tropeçam na semântica, naufragam na ortografia e morrem de enfarte com a sintaxe.
Talvez a solução seja voltar ao velho bloco de anotações, para que o jornalista vá editando com sua inteligência à medida que escuta, e restitua o gravador a sua categoria verdadeira, que é a de testemunho inquestionável. De todo modo, é um consolo supor que muitas das transgressões da ética, e outras tantas que aviltam e envergonham o jornalismo de hoje, nem sempre se devem à imoralidade, mas igualmente à falta de domínio do ofício.
Talvez a desgraça das faculdades de Comunicação Social seja ensinar muitas coisas úteis para a profissão, porém muito pouco da profissão propriamente dita. Claro que devem persistir em seus programas humanísticos, embora menos ambiciosos e peremptórios, para ajudar a constituir a base cultural que os alunos não trazem do curso secundário.
Entretanto, toda a formação deve se sustentar em três vigas mestras: a prioridade das aptidões e das vocações, a certeza de que a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por definição, e a consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.
O objetivo final deveria ser o retorno ao sistema primário de ensino em oficinas práticas formadas por pequenos grupos, com um aproveitamento crítico das experiências históricas, e em seu marco original de serviço público. Quer dizer: resgatar para a aprendizagem o espírito de tertúlia das cinco da tarde.
Um grupo de jornalistas independentes estamos tratando de fazê-lo, em Cartagena de Indias, para toda a América Latina, com um sistema de oficinas experimentais e itinerantes que leva o nome nada modesto de Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano. É uma experiência piloto com jornalistas novos para trabalhar em alguma especialidade - reportagem, edição, entrevistas de rádio e televisão e tantas outras - sob a direção de um veterano da profissão."
"A mídia faria bem em apoiar essa operação de resgate. Seja em suas redações, seja com cenários construídos intencionalmente, como os simuladores aéreos que reproduzem todos os incidentes de vôo, para que os estudantes aprendam a lidar com desastres antes que os encontrem de verdade atravessados em seu caminho. Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade.
Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."

Flashes de um pesadelo em Kifri

Daniel Scola

A última lembrança que o jornalista galês Stuart Hughes, 31 anos, guarda da guerra no Iraque é um mosaico de imagens grotescas. Produtor da BBC, detonou com o calcanhar direito uma mina terrestre ao desembarcar do carro que levava sua equipe nos arredores da cidade de Kifri, norte do país. Os momentos seguintes à explosão foram de confusão, gritos, desespero e sangue. O cinegrafista que estava com Stuart, Kaveh Golestan, 52 anos, morreu, atingido por outras duas minas. Iraniano, Kaveh trabalhava para a BBC havia mais de 10 anos, e entre muitos prêmios conquistou um Pulitzer. [Estava no carro também o repórter da BBC Jim Muir, baseado em Teerã.]

"Apesar de gravemente ferido, consigo, ainda que vagamente, lembrar daquele pesadelo", diz Hughes. "Como uma série de flashes e imagens distorcidas. Quando houve a primeira explosão, Kaveh correu para se proteger. Isso acabou sendo fatal para ele. Meu colega e amigo atingido por várias minas e eu com a perna em pedaços e gritando. Achei que seria o meu fim." Além de Kaveh, mais 13 jornalistas morreram durante a guerra no Iraque. A experiência de Stuart em cobertura de conflitos não se resume ao Iraque. Há dois anos, fez pela BBC um curso de reportagem em zonas de conflito. Foi enviado da rede britânica ao Oriente Médio e fixou-se em Jerusalém por alguns meses para acompanhar a nova Intifada.
Hughes teve a perna direita amputada na altura do joelho alguns dias depois do acidente, em março. Desde então, divide o tempo entre Londres e Cardiff, no País de Gales, onde faz fisioterapia de adaptação ao uso da prótese na perna.
Nesta entrevista ao Observatório, concedida na Universidade de Cardiff há duas semanas, no dia em que experimentou a prótese pela primeira vez, o jornalista avalia o sistema de correspondentes de guerra incorporados a tropas, fala sobre o acidente e se diz mais consciente agora em relação à segurança. "Consegui escapar com o nível mínimo de ferimentos que a explosão de uma mina terrestre pode produzir. Foi pura sorte."

Funcionou o sistema de jornalistas "embedded"?

Stuart Hughes – Havia pelo menos três tipos de correspondentes no Iraque: os repórteres embedded (o Pentágono credenciou apenas jornalistas britânicos e americanos para se incorporarem às tropas), os repórteres baseados em Bagdá e os "unilaterais". Muitos deles entraram no Iraque por conta própria (alguns até de maneira ilegal). Eu e minha equipe fazíamos parte do terceiro grupo. Partimos do sul da Turquia em direção ao Iraque um mês e meio antes da invasão anglo-americana, em março. Não me arrependo de ter feito a cobertura como unilateral. Se tivesse me juntado ao exército provavelmente teria chegado muito mais perto da linha de batalha. O problema de ser um embedded é que os jornalistas ficam extremamente limitados no que podem informar. Mas, embora exista censura por parte dos militares, acho que este sistema vai acabar se tornando uma norma.

Como foi o acidente?

S. H. – Nossa equipe estava em Kifri, no norte do Iraque, onde as forças iraquianas tinham perdido o controle daquela área apenas dois dias antes da nossa chegada. Nós tínhamos a informação de que soldados iraquianos haviam recuado cerca de 20, 30 quilômetros. Este foi um período da guerra em que as linhas de batalha se moviam muito rapidamente. Achei que seria relevante investigar o que estava acontecendo na cidade. Kifri havia caído nas mãos dos curdos, e um dos líderes deles nos cedeu um soldado para nos guiar até um bunker, nos arredores da cidade, que servia como posição de defesa para os iraquianos. Eu queria fazer imagens daquela área.
Quando nós chegamos lá, o soldado que nos guiava pediu ao nosso motorista que parasse às margens da estrada. Ele nos garantiu que o local era seguro, e ter seguido esse conselho foi um grande erro. Saí do carro e imediatamente pisei numa mina. A explosão arrancou parte do meu calcanhar. O cinegrafista que estava comigo correu para se proteger pensando que nossa equipe estava sendo bombardeada. Na verdade, ele acabou correndo na direção de uma área minada. Aquelas últimas imagens que eu tenho do Iraque são confusas, mas eu acredito que Kaveh primeiro pisou numa mina. Com a explosão, o corpo dele foi jogado para a frente, detonado outras minas. Morreu horas depois.

O acidente no Iraque foi o preço que você pagou por não ser um repórter "embedded"?

S. H. – Posso dizer que tive muita sorte. A explosão poderia ter atingido outras partes do meu corpo. Acho que não seria totalmente correto dizer que meu acidente ocorreu porque eu não era um embedded. Mas seria correto, na minha opinião, dizer que os jornalistas unilaterais como eu tiveram menos sorte do que os outros.

Você tem dito que está pronto para voltar à ativa. Em um eventual novo conflito, você iria novamente como unilateral ou "encaixado" com tropas militares?

S. H. – Eu diria que, como jornalista, sim, eu estou pronto e gostaria muito de voltar logo à estrada. Depois do meu acidente, quando me trouxeram de volta a Londres, eu vi na televisão as imagens dos palácios presidenciais sendo tomados pelos soldados americanos. Pensei: eu quero voltar pro Iraque! É como se eu tivesse lido um livro de aventura sem poder ler o ultimo capítulo. Eu gostaria muito de voltar a trabalhar em zonas de conflito. Mas agora, tendo o acidente como referência, eu preciso medir melhor cada atitude que eu tomar daqui para a frente.
Preciso, acima de tudo, avaliar bem meus desejos e minhas ambições. Minha família também será um referencial importante quando eu tiver de tomar essas decisões. Se uma guerra começar amanhã, por exemplo, seria muito difícil dizer a minha família: estou de volta à guerra. Acho que seria demais para eles aceitarem o fato de eu estar indo para uma zona hostil. Ainda não sei se estou totalmente preparado psicologicamente para voltar a uma zona de conflito. Eu disse aos meus pais que gostaria de voltar a ser correspondente em Jerusalém. A princípio eles não gostaram muito da idéia, mas eu tenho certeza, com o tempo vão acabar aceitando.
Certamente minha principal preocupação no momento não diz respeito somente a minha segurança. O acidente me fez refletir sobre muitas coisas e eu estou muito mais consciente em relação à segurança agora do que antes de ir para o Iraque. Minha principal preocupação agora é em relação a minha família. Eu não gostaria de ir para um conflito e deixá-los com a sensação de que eu posso não retornar vivo.

Você talvez tenha sido o único jornalista que conseguiu acompanhar a guerra pelos dois lados: na linha de batalha e como telespectador. Como foi essa experiência?

S. H. – Eu assisti à invasão de Bagdá pela televisão, dois dias depois da cirurgia para amputar a minha perna. É evidente que eu queria ter estado lá. Por outro lado, não importa como as guerras são mostradas na televisão, eu posso dizer que guerras não têm nada de heróico. Não há nada de divertido em fazer a cobertura de uma guerra como jornalista. Muito pelo contrário, estes são lugares onde milhares de pessoas morrem, inclusive alguns jornalistas. É estimulante ir para uma guerra como jornalista, mas todos os mitos sobre ser correspondente de guerra se desfazem quando você é pego num fogo cruzado, por exemplo.

Em termos de balanço e imparcialidade, como foi a cobertura da BBC no Iraque?

S. H. – De um modo geral, acho que a BBC se saiu muito bem. Nós tivemos muita sorte de ter correspondentes em todas as partes do Iraque, principalmente em Bagdá. A BBC estava ciente das restrições que o Pentágono havia imposto aos jornalistas embedded, e eu acho que os correspondentes da BBC souberam refletir esse aspecto na cobertura da guerra. Pelo fato de a BBC ser uma grande corporação, a cobertura ficou mais interessante tendo repórteres não só no Iraque, mas na Jordânia, no Kuwait, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. A BBC recebeu cartas e e-mails de ouvintes e telespectadores dizendo que a cobertura era pró-guerra na mesma proporção da audiência que dizia que nós fomos contra o conflito. Na minha opinião, esse fato comprova a nossa imparcialidade.

Como você vê o papel do jornalista embedded depois da guerra no Iraque?

S. H. – Acho que esse sistema tende a se tornar mais importante a cada conflito. Os generais americanos que comandaram o conflito avaliaram esse sistema de forma muito positiva. Agora, eu acho que seria muito perigoso confiar somente no que é dito pelos repórteres encaixados nas tropas. É preciso sempre ter em mente que há um forte controle editorial por parte do exército.
Acredito que a figura deste correspondente tenda a ser mais importante daqui para a frente, mas ao mesmo tempo o exército com certeza vai querer controlar cada vez mais a pauta do jornalista. Basta lembrar que cada correspondente que se juntou ao sistema ganhou um manual elaborado pelo Pentágono com 12 páginas sobre o que eles podiam e o que eles não podiam dizer. Colocar o jornalista com as tropas é questionável do ponto de vista ético. Mas esse sistema é uma tendência que vamos ver mais e mais.